Suéter verde escuro
- andyfaci

- 8 de set. de 2021
- 5 min de leitura
Atualizado: 11 de set. de 2021
A chuva caia lá fora enquanto nós dois assistíamos a um filme qualquer, que não consigo nem me lembrar do nome, já que o filme era a última coisa que me importava naquele momento, provavelmente algum filme de alienígenas. Minha atenção estava no suéter que eu estava vestindo.
É claro, eu como a pessoa cabeça dura que sempre fui, não quis levar um agasalho quando fui dormir em sua casa, afinal de contas, o tempo estava ótimo quando saímos da escola no dia anterior, mas o tempo fechou na manhã seguinte, e você vendo o quanto frio eu estava sentindo, me emprestou um de seus suéteres.
- Ficou ótimo em você, verde combina com seus olhos – você sorriu ao me ver vestir aquele suéter verde escuro, enquanto eu sentia seu cheiro me envolvendo, me aquecendo por fora, e por dentro.
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O tempo estava lindo naquele dia. Não estava quente, mas também não estava tão frio. A primavera tinha começado há pouco tempo e as flores adornavam as calçadas. Era o primeiro dia de aula, nosso último ano no ensino médio.
Mas, dentro de mim, o clima não parecia assim tão bem. Mal sabia eu que viria uma tempestade interna, a qual eu teria que lidar sozinho.
Durante o intervalo, enquanto bebia meu suco, não conseguia tirar meus olhos de você. Você sempre foi a pessoa mais linda que já conheci, seus cabelos castanhos sempre tão bem arrumados e volumosos, seus olhos castanhos tão cheios de vida, eu sempre fui apaixonado por tudo. Apaixonado até mesmo por sua personalidade horrível, sua mania de me irritar e se esforçar tanto a ponto se machucar. Mas minha memória mais antiga é de nós dois brincando no quintal da sua casa, dois pirralhos que sequer conseguiam completar uma frase caçando insetos, na verdade eu os caçava enquanto você chorava pedindo para que eu largasse aquele “bicho estranho”.
Eu te conheço há tanto tempo que já conheço todas suas inseguranças e medos, sei que, apesar de todos seus defeitos, você é perfeito, tanto por dentro, quanto por fora.
Mas, enquanto te observava notei algo que nunca tinha visto antes.
Por um segundo seus olhos brilharam, o canudo do seu refrigerante parado no ar antes de tocar seus lábios, e sua boca entreaberta. Então, segui seu olhar e encontrei o que te fez ficar tão atônito. Aquele foi o momento que soube, eu seria para sempre somente seu melhor amigo.
Olhos cor de mel, longos cabelos pretos, lábios que adornavam um sorriso tão lindo, literalmente um anjo, era o que eu via andando pelo corredor, em nossa direção. Não consigo me lembrar das palavras que vocês trocaram, só conseguia te observar discretamente, como sempre fiz.
As pessoas dizem que não existe amor à primeira vista, mas eu discordo. Eu pude presenciar o momento que você se apaixonou. E o momento em que morri por dentro.
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Fazia muito tempo desde a última vez que sonhei com você, mas nessa noite foi algo que eu nunca tivera sonhado antes: você me beijava. Quando acordei no meio da madrugada, me lembrando de tudo não pude evitar e deixei minhas lágrimas caírem, eu sabia que aquele era o único lugar em que algo assim aconteceria: nos meus sonhos mais profundos.
Não consegui mais dormir, mesmo assim fui à escola, o ano já estava acabando, logo seria hora das provas finais e o tempo seguia assim como eu, nublado, triste.
Logo no portão, me esperando como sempre, estava você. Sorrindo e acenando para mim, e somente isso já fez com que tudo ficasse mais claro, mas esse momento não durou muito. Ao olhar ao seu lado vi seu suéter verde escuro, sendo vestido por aquele anjo, aquela garota linda pelo qual você se apaixonou à primeira vista no começo do ano.
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- Ei, o que aconteceu com você? Está tudo bem? – ouvi aquela linda voz me perguntando enquanto andava em direção a ela.
Era o dia do nosso vestibular, você insistiu para que eu tentasse a mesma universidade que você e eu fui, mesmo eu sabendo que minha carta de aceitação estava em cima da minha escrivaninha, pronta para ir para outro lugar, bem longe de você. A linda garota havia te acompanhado para fazer sua prova e te esperava na cafeteria da universidade, mas eu havia saído antes e a encontrei primeiro. Eu detestava ficar sozinho com ela.
- Bom, seu namorado dormiu na minha casa para estudarmos até tarde e ele está completamente apaixonado por você, ficou falando de você até dormir, o quanto é perfeita. Mas eu não consegui dormir, fiquei chorando e te odiando o tempo todo. – era o que eu gostaria de dizer.
- Está tudo bem, mas a prova estava bem difícil. – mas menti, sorrindo.
Enquanto te esperávamos conversamos. E mais uma vez, entendi por que você a amava tanto. Ela era realmente perfeita.
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A formatura chegou e com ela o momento de dizer adeus.
Ainda lembro vividamente o quanto você ficou bravo comigo, pois só te contei que iria estudar em outro país um dia antes da formatura. Você esperava que eu fosse para o mesmo lugar que você, que dividiríamos um apartamento na cidade, entraríamos no time da universidade e logo o time nacional, assim como sempre planejamos. Mas eu te convenci, disse que o melhor lugar para o meu curso era lá, que lá tinha um mentor que eu admirava e você entendeu. Me parabenizou, e prometeu que iria me visitar, e se animou com a ideia de ter o melhor amigo morando em outro país.
Mas logo você esqueceu de tudo enquanto dançava com sua namorada.
Aquela garota linda, em seu vestido de renda cor de rosa, representando toda sua inocência e feminilidade. Coisas que você mais amava nela. Coisas que eu nunca iria ter.
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Era dezembro, estava nevando.
Eu já tinha terminado a faculdade e tinha um bom emprego em Nova Iorque, cidade a qual eu decidi chamar de casa. Conheci novas pessoas, fiz novos amigos, mas você ainda era a pessoa mais importante para mim.
No começo, conversávamos quase todos os dias, mas depois era impossível manter a rotina, devido a vida tão ocupada que a universidade nos presenteou. Mas nunca deixamos de nos falar, continuamos sendo os melhores amigos que sempre fomos, enquanto te falava sobre os lugares maravilhosos que eu tinha conhecido e você me atualizava sobre tudo, inclusive sua namorada.
Naquela noite de dezembro, logo depois de chegar do trabalho, retirei meus sapatos e meu casaco, deixei minha pasta em cima do aparador na entrada do apartamento, fui até o sofá para ver as cartas que eu havia acabado de pegar na caixa do correio. Uma em especial me chamou a atenção.
Meu coração acelerou ao examinar de perto, era um envelope preto com letras douradas com endereço de envio do meu país. A abri calmamente e a primeira coisa que vi foi seu nome e daquele anjo que você escolheu como namorada, logo abaixo, uma data do ano seguinte.
Não precisei terminar de ler para me render as lágrimas.
Segurando aquele pedaço de papel contra meu peito eu soluçava, e gritava, depositava todos os anos de dor e sofrimento naquele papel, como se você pudesse me ouvir. Era um grito de socorro, mas ao mesmo tempo, um grito de liberdade. Você nunca foi meu, mas eu precisava te deixar ir.
E foi assim que adormeci naquela noite, chorando baixinho, encolhido no sofá, segurando entre as minhas mãos o convite para seu casamento e sonhando que ali, não era o nome dela ao lado do seu, e sim o meu.
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